A insustentável leveza da democracia (*Luiz Marques)
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Três anos e oito meses se passaram desde a posse do governador Olívio Dutra, em 1º de janeiro de 1999. Tempo suficiente para que a agenda política do Rio Grande do Sul mudasse radicalmente. Como membro da coordenação de campanha, à época, lembro que os debates giravam em torno da questão das privatizações do patrimônio público, pilar de sustentação do neoliberalismo defendido pela administração anterior. Aqueles que se opunham a esta concepção que, por mimetismo político aplicava o receituário do Consenso de Washington, eram classificados de micuins. Submissos em relação ao comando do capital internacional, comportavam-se com autoritarismo e arrogância diante da oposição. Se tivessem continuado no poder, o Estado teria perdido a capacidade de investimento e, hoje, por exemplo, não contaria com o Banrisul para financiar os pequenos e médios empreendedores do campo e da cidade. Naquele período, recordo ainda, encantados com o discurso anglo-saxônico sobre o Estado-mínimo e a globalização dos mercados, os ex-governantes orgulhavam-se de haver feito o PDV e virado as costas para as vocações econômicas tradicionais do RS. A criação de postos de trabalho era associada à indústria automobilística, na lógica da renúncia fiscal sem limites, não ao incentivo dos sistemas locais de produção. A participação direta da população na gestão dos recursos financeiros do Estado era tratada com ceticismo e indiferença, segundo a máxima shumpeteriana de que o povo é capaz de escolher seus governantes mas não de governar a si mesmo. A vitória da Frente Popular, contudo, enterrou a miséria de utopia do projeto neoliberal do ponto de vista ideológico. Compreende-se então que os temas agora priorizados na campanha sejam uma extensão do programa defendido pelo atual governo. A direita já não possui um programa para apresentar à sociedade em condições de interpelar os eleitores. Na falta deste, está condenada a espetacularizar as críticas e a recorrer à demagogia para compensar os próprios vazios programáticos. A chamada CPI da Segurança foi somente uma avant-première da estratégia buscada por aqueles cujas medidas anti-sociais passaram a esbarrar na consciência de direitos adquirida pela cidadania gaúcha. É de se esperar, assim, por efeito da dissimulação dos que negam sua identidade política e sua biografia pessoal, que as acusações e insinuações substituam os argumentos e o confronto de visões sobre os rumos do RS, como se viu na estréia do horário eleitoral gratuito. Tal perspectiva, em vez de qualificar a dinâmica de funcionamento do Estado Democrático de Direito, acena para um rebaixamento premeditado do embate. Não penso que isto coloque em risco a reeleição do projeto representado pelo PT, mas sim a insustentável leveza da democracia na percepção do senso comum. Coisa que, na história da América Latina, conforme diria Emir Sader, sempre evoca um rumor de botas. (*Secretário da Cultura)