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Discurso do Governador Germano Rigotto no Ato de Recebimento do Troféu Hebraica

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Não preciso lhes dizer que o Rio Grande do Sul é um estado acolhedor e hospitaleiro. Para aqui vieram diversas correntes migratórias naqueles anos particularmente difíceis que marcaram a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX. Alemães, italianos, poloneses, vieram juntar-se aos brasileiros natos, aos índios, negros, açorianos e seus descendentes que formavam a base social de nosso estado. Foi sobre essa argamassa social que se acrescentaram, no início do século passado, os judeus vítimas de perseguições czaristas, que migraram para as colônias adquiridas com a generosidade do Barão Maurício de Hirsch. Tal história os senhores e as senhoras conhecem muito bem. Ela está escrita nas vossas memórias com as tintas do padecimento e do sacrifício de vossas famílias. Se estou referindo essa saga é porque penso que ela deva estar muito presente quando nos preparamos para festejar o centenário da imigração dos judeus para nosso estado. E como governador quero estar integrado a esses festejos num gesto de respeito, solidariedade e reconhecimento. Minha consciência moral e civil é agredida perante quaisquer manifestações de preconceito e discriminação. Por isso, determinei que fossem feitos estudos, com o objetivo de criar instrumentos que possibiliten a ação e a intervenção do Estado, na forma da lei, perante manifestações dessa natureza. O povo rio-grandense é um povo democrático e pluralista, bom e solidário. É preciso preservar tais valores. A solidariedade, aliás, é uma característica muito própria desta específica corrente migratória, que nasceu do sofrimento do povo, evoluiu graças a solidariedade interna, e, quando a nova pátria lhe franqueou as portas, deu ao Rio Grande do Sul uma enorme contribuição no plano da cultura, da inteligência, e dos valores que a caracterizam. Aliás, a chegada de seus antepassados à América e ao nosso estado marca um notável reencontro do Ocidente com suas mais antigas e substanciais origens. Pergunto: o que é o Ocidente, como civilização, se não o produto do encontro da cultura latina com a hebraica, com o monoteísmo e com os valores da solidariedade e do labor humano? Não creio que a natureza e o valor desse encontro tenha estado muito presente na compreensão de nossos conterrâneos no início do século passado. Mas ele aconteceu, e continuou a acontecer, e continua acontecendo. Os artesãos que para aqui vieram há um século, gente de origem humilde e sem recursos, acabaram fluindo para os centros urbanos, e passaram a compor a cena da época, com as figuras dos klientelshik e dos gravatnik. Assim, gradualmente, saindo do campo para o comércio mais rudimentar e para as pequenas atividades artesanais, foram produzindo um novo modo de inserção na vida urbana. Deram origem aos centros sociais, às sinagogas, e às instituições de solidariedade aos que chegavam e aos que lutavam por reconstruírem suas vidas. Como esquecer das caixas de empréstimo e das caixas de doentes, onde se emprestavam termômetros e seringas aos enfermos? Quantos dos senhores ainda trazem nos ouvidos a voz insistente da (muter), repetindo: Tem que estudar! Tem que estudar!? E aí surge um novo marco na presença entre nós da comunidade judaica, assinalada, também, pela dedicação ao estudo, pela busca incessante da formação intelectual, que levou tantos e tantos membros dessa comunidade a ocuparem postos de destaque na comunidade acadêmica, nas profissões liberais, na cultura, nas artes, na ciência. Tem que estudar! E quem teve colegas judeus sabe o quanto era difícil - se não impossível - estudar mais do que eles e obter resultados escolares melhores do que os deles. Pode haver evidência melhor disto que afirmo, do que o nosso acadêmico Moacir Scliar, bom em tudo que faz, mestre da saúde pública e imortal da nossa literatura? Portanto, meus amigos e minhas amigas, recebo esta homenagem com emoção e reverência. Sou um homenageado que quer homenagear. Jamais esquecerei esta noite em que estou sendo agraciado com o Troféu Hebraica. A noite vai para a minha memória e o troféu para um lugar de honra. No ano de 1903, quando o Barão Maurício de Hirsch comprou aquela colônia que no ano seguinte haveria de receber os primeiros emigrantes judeus a chegarem no Brasil, um menino de dez anos cavalgava pelos campos do Alegrete. Quis o destino que aquele menino viesse a ser um dos maiores estadistas da república brasileira e se convertesse no grande articulador da existência do Estado de Israel. Daquele menino pode-se repetir o que sobre ele disse alguém, lembrando as palavras de Maquiavel a respeito de uma personalidade de seu tempo: Este, para ser um rei, só faltou um reino. Mas podemos acrescentar que ele, no entanto, se não teve um reino para reinar sobre seu próprio povo, deu uma pátria a um povo que não a tinha. Oswaldo Aranha haveria de unir, para sempre, o Rio Grande do Sul ao povo hebreu. Essa união, muito significativa para os gaúchos de todas as raças, certamente recebe uma bênção muito especial do Senhor da Justiça, da Paz e do Amor. Shalom!
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