Discurso do governador - interiorização em Camaquã
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Discurso do governador Germano Rigotto na interiorização em Camaquã, 14.11.2003 O João-de-barro é um passarinho de nada. Como deve ser brabo, para ele, o esforço de levar no bico, por dias a fio, pedacinhos de barro e pedacinhos de capim. Mas não afrouxa o tutano, ajeita daqui, ajeita dali, voa para cá, voa para lá, traz, põe terra, não cansa, voa de novo, empurra com o biquinho os grãozinhos de terra, bate as asinhas doloridas de cansaço, se agiganta, vem a chuva ameaçando pôr tudo abaixo, ele remenda o que a chuva estragou, recomeça, vem o gavião voando para acabar com a vida dele, ele foge, quando gavião vai embora ele volta, segue em frente, traz mais barro, chega ao topo, dá os remates finais... E olha lá, num amanhecer de primavera, o rancho todo construído e ele piando de felicidade ao lado da companheira. E agora podem vir chuvas, que isto não tem mais importância. E pode vir o gavião de novo, que os filhos estão dormindo com toda a segurança numa caminha de penas. Que lindeza! Se o joão-de-barro, que é um passarinho flaquito, pode fazer tudo isso com seu biquinho de nada, por que não poderá um homem construir sua felicidade? Basta querer! *** Impossível estar na nossa Camaquã sem avivar a saudade que temos do autor dessa admirável parábola, Barbosa Lessa, que aqui encontrou o santuário onde abrigou-se nos últimos anos de vida. Santuário ecológico da flora e da fauna nativas e santuário da sua inspiração literária. Por isso, quis iniciar este breve pronunciamento, com a motivação que nos proporciona a reflexão de Barbosa Lessa sobre o joão-de-barro. Se ele, que é um passarinho flaquito, pode fazer tudo isso, por que não poderá o homem construir uma sociedade melhor para si e para os seus? Como não haveremos os gaúchos, povo forte e valoroso, de superar quaisquer dificuldades com trabalho e dedicação? É o que estamos fazendo! *** Por outro lado, a permanência do governo em Camaquã é fonte de inspiração. A nossa Camaquã, prefeito João Carlos Machado, não é um lugar qualquer. Ao contrário, é parte significativa de nossa história e das nossas mais nobres tradições. Como esquecer que o grande Zeca Netto foi o primeiro prefeito nomeado em Camaquã? Como esquecer, vereadora Sônia Neubauer, que Bento Gonçalves foi o primeiro presidente da nobre Câmara Municipal que a senhora preside? Neste solo sagrado viveram homens e mulheres de inexcedível fibra, que permanecem como luzeiros para as gerações que os sucederam. Trazer o governo a Camaquã é beber dessa vertente. *** Toda atividade humana envolve um conjunto de rotinas. Em torno delas desenvolvemos nosso dia-a-dia. Não é diferente com a vida de quem esteja investido de funções públicas. São os despachos, as audiências, as assinaturas, os atos internos e externos, as representações. É muito fácil que, diante disso, a rotina se confunda com a função. Ou, mais grave ainda: que a função se esgote na rotina. Evitar que isso aconteça é algo que deve se constituir em permanente zelo do governante. Mark Twain dizia que a rotina é uma coisa tão chata quanto saber que era domingo porque a cozinheira fazia peixe para o almoço. Acima da rotina devem se impor, sempre, a criatividade, a novidade, o contato com a realidade presente, a visão de futuro, o decidido confronto com os problemas e a superação das dificuldades. A decisão de interiorizar o governo, de vir a Camaquã, de conversar com os senhores e as senhoras, se inscreve nessa concepção e decorre da muito firme compreensão que temos a respeito das nossas tarefas. Vale para mim e vale para toda nossa equipe de governo, desde o primeiro dia. *** Nem saberia fazer diferente. Sempre acreditei na cooperação e na união de esforços. Sequer minha sobrecarregada agenda de governador seria capaz de fazer com que deixasse de ouvir as pessoas e de andar pelo Rio Grande. Ao contrário: essa ação construtiva é, hoje, uma determinação de todo o governo. Porém, mais do que para mostrar esse espírito do qual estamos imbuídos, aqui estamos para trabalhar. É o governo que se faz representar, e o faz numa missão de trabalho. Nossos secretários estarão despachando assuntos específicos de suas pastas, com agendas autônomas, assistidos por seus principais assessores. Tenho certeza que será um dia muito produtivo para a região e para o governo. Queremos ouvir os prefeitos, os vereadores, o COREDE, as entidades sociais e comunitárias, o meio empresarial, os trabalhadores, a imprensa, todos os que aqui estão. Queremos a parceria das instituições universitárias que atuam na região. Queremos, enfim, ter a perfeita noção dos problemas para, com dados firmados na realidade, respondermos aos seus anseios. O que os olhos não vêem o coração não sente. *** Antes de iniciarmos nossos trabalhos preciso dizer-lhes que tudo o que faremos, quaisquer decisões que tomemos como conseqüência deste encontro, se inscreve numa firme disposição de nosso governo: promover o desenvolvimento e superar os desequilíbrios regionais. Já encaminhamos inúmeras medidas, já elaboramos uma série de programas voltados para o estímulo ao desenvolvimento. Não me moldarei às políticas que acabaram induzindo a uma totalmente incorreta distribuição dos investimentos públicos e privados em nosso estado. Isso não é justo e não faremos assim. O binômio FUNDOPEM/INTEGRAR/RS já é um importante instrumento de desconcentração industrial, com absoluta ênfase às regiões com maiores problemas de desemprego e renda. *** Vamos trabalhar, portanto. Queremos o progresso. Vamos buscar os postos de trabalho onde quer que eles possam ser atraídos. E faremos isso tendo em vista o vasto conjunto de nossas potencialidades materiais e humanas, sem perdermos de vista nossa identidade e nosso patrimônio cultural. O futuro não pode nos levar a deixar de ser o que somos, porque nos orgulhamos do que somos. É mais uma vez o camaqüense adotivo Barbosa Lessa que nos ensina: qualquer sociedade poderá evitar a dissolução enquanto for capaz de manter a integridade de seu núcleo cultural. Esta terra hospitaleira e altaneira sempre soube ser assim. Muito obrigado e ao trabalho!