Do Atelier ao Cubo Branco abre a temporada de exposições do Margs
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O papel do ateliê como lugar de formação tem sido progressivamente motivo de estudo e de investigação por parte de historiadores, críticos, teóricos e pesquisadores. Escolas de arte tornaram-se também, ao longo do tempo, locais de produção, e sua existência no universo da circulação da produção artística desenvolveu um significativo papel na construção de vocabulários, tendências e escolas de influência.
Do Atelier ao Cubo Branco busca assinalar momentos significativos tanto na ramificação de influências e trajetórias quanto na disseminação de conhecimento através do ensino da arte em um contexto não acadêmico, apresentando a produção de artistas que, em algum momento, contribuíram à formação artística no contexto de ensino do Atelier Livre da Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Essa exposição traz um conjunto de obras que representam tendências diversas da produção contemporânea brasileira, em uma rica confluência de estilos e abordagens artísticas de várias gerações.
Fundamentada na discussão relacionada à produção do artista em seu contexto original, Do Atelier ao Cubo Branco inspira-se em um debate que tem por referência fundamental o canônico artigo Fonction de latelier (A Função do Atelier, 1971) em que Daniel Buren assinala a problemática da transição da obra de arte do estúdio do artista para o espaço expositivo do museu ou da galeria. Segundo Buren, a obra sofreria uma modificação substancial em seu significado ao ser transferida de seu lugar de produção para o espaço expositivo, uma passagem que implica uma radical mudança de contexto.
Apontando o ateliê como um purgatório, e a ida ao museu como a passagem ao paraíso, Buren associa o atelier do artista a um centro de produção do qual a obra é retirada para passar ao universo do mercado. Entre o espaço privado do ateliê e o espaço público do museu, a obra move-se em meio a uma inevitável dicotomia: a de, por um lado, ocultar-se à visibilidade pública, quando no ateliê, e, por outro, sofrer uma perda de seu contexto quando se encontra no museu.
Do Atelier ao Cubo Branco descortina um universo que nos é muito conhecido, mas ainda pouco estudado em sua importância para o modo de ser da arte: aquele do ateliê do artista. Embora, nesses últimos anos, tenham-se ampliado os estudos sobre o ateliê, trata-se de algo ainda pouco explorado em exposições. A escolha do Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre como centro gravitacional dessa exposição busca ampliar a envergadura da questão que se propõe trazer a público: aquela do espaço de criação, do lugar de formação do artista e do site de surgimento do universo estético. Com este empreendimento curatorial o Margs chama a atenção para a importância do ensino livre no contexto da formação artística. A exposição reúne artistas que realizaram sua formação no Atelier Livre e aqueles que ministraram cursos e oficinas ou lá seguem desenvolvendo atividades de ensino.
A exposição inclui, ainda, dois segmentos distintos. O primeiro, intitulado O Atelier Museológico, traz o ateliê para dentro do contexto institucional do museu, com a presença do artista trabalhando in situ. O resultado final, ou seu contínuo processo, proporciona um contexto de produção que caracteriza aquele espaço como local de trabalho. Dessa forma, há, simultaneamente, uma subversão da lógica do ateliê e do espaço de exposições, uma vez que este se encontra em um espaço museológico, e apresenta obras em situação original de formação criativa. Esse segmento privilegia a situação onde as obras são concebidas, preservando, durante a exposição, tanto o instrumental quanto os recursos utilizados pelos artistas na sua produção.
O segundo segmento da exposição, intitulado Reverso, assinala a presença no museu do que podemos chamar de o oposto do Cubo Branco (White Cube), representado pelas Salas Negras do Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli (Margs). Historicamente criadas para expor gravuras, elas introduziram, com antecipação, um fenômeno que hoje conhecemos como Black Box (Caixa Preta), marcado pela introdução do filme e do vídeo no espaço do museu, fazendo com que a relação do espectador com o espaço, antes imaculado, passasse a incorporar as sombras e a relação entre a imagem e o movimento. Com obras que privilegiam a monocromia e questões de reprodutibilidade técnica, o segmento Reverso representa uma contrariedade ao cubo branco da modernidade, o seu complemento e, ao mesmo tempo, seu contraponto.
Do Atelier ao Cubo Branco inaugura uma nova fase de exposições que serão realizadas pelo Museu de Arte do Rio Grande do Sul, privilegiando uma abordagem curatorial em que a reflexão e a produção de conhecimento terão sempre papel significativo.
OBRAS DOS ARTISTAS:
Alexandra Eckert
Alfi Vivern
Ana Alegria
Ana Flávia Baldiserotto
Ana Pettini
Anestor Tavares
Anico Herskovits
Antônio Augusto Bueno
Armando Almeida
Britto Velho
Carlos Asp
Carlos Fajardo
Carlos Krauz
Carmem Moralles
Cláudio Martins Costa
Clébio Soria
Danúbio Gonçalves
Eduardo Haesbaert
Elaine Tedesco
Eleonora Fabre
Elton Manganelli
Ênio Lipmann
Félix Bressan
Flávio Pons
Francisco Stockinger
Gerson Reichert
Hélio Fervenza
Heloisa Schneiders da Silva
Henrique Fuhro
Hudinilson Jr.
Iberê Camargo
Jane Machado
Karin Lambrecht
Lia Menna Barreto
Liana Timm
Luiz Paulo Baravelli
Marcelo Grassmann
Maria Conceição Menegassi
Maria Ivone dos Santos
Maria Tomaselli
Mário Röhnelt
Maristela Winck
Maurício Bentes
Mauro Fuke
Milton Kurtz
Mirian Tolpolar
Patrício Farias
Paulo Chimendes
Paulo Peres
Paulo Porcella
Pedro Girardello
Regina Silveira
Renato Garcia
Rodrigo Pecci
Rogério Livi
Shirley Paes Leme
Túlio Pinto
Tunga
Ubirajara Lacava
Vasco Prado
Vera Chaves Barcellos
Vera Wildner
Walmor Corrêa
Wilson Cavalcante
Do Atelier ao Cubo Branco
Abertura: dia 12 de abril, às 19h
Visitação: 13 de abril a 29 de maio de 2011
Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli
Visitação de terças a domingos, das 10 às 19h
Entrada franca
Praça da Alfândega, s/n° - Centro Histórico
90010-150 - Porto Alegre/RS - Brasil
Fone (51) 3227.2311 - Fax (51) 3221.2646
www.margs.rs.gov.br
Texto: Maria Emilia Portella
Edição: Redação Palácio Piratini