Estado comemora 190 anos da Imigração Alemã nesta sexta-feira
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Havia apenas dois anos que o Brasil estava independente de Portugal, no Rio de Janeiro Dom Pedro I ainda juntava os cacos e tentava acabar com a insatisfação nas colônias de norte a sul do país. No Rio Grande do Sul, índios, portugueses, espanhóis e negros escravizados (o Brasil só se livraria da vergonha da escravidão em 1888) também viviam as dores e as alegrias deste verdadeiro caldo cultural na Província de São Pedro. Neste cenário, em 1824, desembarcam no Rio de Janeiro 39 alemães que vieram para o Brasil com promessas de passagens pagas, cidadania, lotes de terras, suprimentos de alimentação, materiais de trabalho e animais, isenções de impostos e liberdade de culto.
Sem o cumprimento das promessas, mas determinados, os primeiros colonos chegaram a onde hoje está localizado o município de São Leopoldo, no Vale do Rio dos Sinos, e se estabeleceram na Real Feitoria do Linho-Cânhamo. “A vinda dos alemães fez parte de um esforço da monarquia brasileira para povoar a Região Sul do país. Os alemães foram os primeiros a chegar, não para substituir os escravos, como é dito, mas para ocupar essas áreas e ampliar a produção de alimentos”, conta René Gertz, professor e doutor do departamento de história da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).
Apoio do Governo
Para marcar os 190 anos da chegada destes pioneiros ao País e ao Estado, comemorados nesta sexta-feira, 25 de julho, uma extensa programação está ocorrendo com o apoio do Governo do Estado do Rio Grande do Sul. Para os preparativos, o Governo criou, por Decreto-Lei de 07 de março de 2012, uma Comissão Executiva. Em julho do mesmo ano, formou também uma Comissão Oficial das Comemorações do Triênio 188-190 Anos da Imigração Alemã, com a nomeação de titulares e suplentes de mais de cinco dezenas de organismos, entre universidades, órgãos governamentais e entidades ligadas à etnia alemã. A oficialização foi realizada em ato solene no Palácio Piratini, no dia 25 de julho de 2012.
“A missão da Comissão não é propriamente organizar eventos, mas mobilizar as instituições e as comunidades teuto-brasileiras a fazerem uso do seu repertório de possibilidades, para realçar com eventos múltiplos uma mobilização generalizada”, explicou Sílvio Aloysio Rockenbach, diretor de Comunicação da Comissões Oficial e Executiva das Comemorações dos 190 Anos da Imigração Alemã no RS.
Atividades e eventos
Várias atividades artísticas, religiosas, cívicas e sociais vão marcar a passagem desta data. Elas tiveram início com uma "Solenidade e Jantar de Confraternização Comemorativos aos 190 Anos da Imigração Alemã no Brasil", no qual ocorreu a Premiação dos Destaques da Imigração Alemã na Capital e no Interior, no Centro Cultural 25 de Julho de Porto Alegre, dia 18 de julho último.
Na data do aniversário, sexta-feira, dia 25, haverá um "Grande Evento Comemorativo",em São Leopoldo, além de sessões Solenes na Câmara de Vereadores de Porto Alegre e de cidades de forte colonização alemã, e na Assembléia Legislativa do RS; exibições de obras cinematográficas no Instituto Goethe, como o filme "A outra pátria", épico de Edgar Reitz sobre um vilarejo fictício na região do Hunsrück, sudoeste da Alemanha, que trata da época da imigração alemã para o Brasil.
Também estão previstos eventos sociais (bailes e jantares) e esportivos (torneios, competições, regatas) a cargo dos Clubes e Sociedades dos municípios de colonização germânica. Até o final deste ano, diversas outras atividades serão realizadas em alusão à data, como na Expointer, onde a Alemanha será o país homenageado.
Apresentação da Ospa
Nesta quinta-feira (24), às 20h30, no Santuário Sagrado Coração de Jesus (Padre Réus),em São Leopoldo, sob a regência de Nicolas Rauss, maestro suíço radicado na Argentina, a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre realizará um espetáculo com repertório homenageando a colonização alemã. Além desta apresentação, o projeto prevê mais oito concertos gratuitos em cidades gaúchas, neste que também é oficialmente o ano da Alemanha no Brasil.
Site com programação
Para quem quiser conhecer a programação completa e acompanhar as múltiplas atividades foi criado um site específico (www.iabrasil190.com), inserido no portal www.brasilalemanha.com.br. Além disso, existe a possibilidade de leitura de uma série de textos, com caráter de afirmação da marcante presença alemã, em grande parte omitida pela historiografia brasileira e desconhecida dos próprios agentes da cultura alemã.
Entre 1824 e 1830, mais de cinco mil imigrantes alemães chegaram ao Brasil, a maioria deles veio para a região do Vale do Sinos e localidades próximas. Esse número chegaria a 300 mil germânicos até o início do Século XX. Entre os motivos da vinda destes colonos está o desenvolvimento da Revolução Industrial em solo europeu, o que fazia com que setores agrários e artesanais perdessem espaço, forçando a saída para grandes metrópoles industriais ou a imigração.
Esta situação acabou unindo o útil ao agradável para o Brasil, que necessitava colonizar regiões distantes da sede do Império, produzir mais alimentos, aumentar a população e as tropas de suas forças armadas e ampliar o número de pessoas com alguma especialização. “Esta sempre foi uma marca alemã, a da especialização. Algo que só agora vem sendo feita no Brasil, com o ensino técnico e tecnológico, já era comum nas escolas alemãs do século XIX. Assim a vinda dos colonos alemães acabou sendo importante, também, para a industrialização do país, que iniciou nas primeiras décadas do século XX”, afirma o professor René Gertz.
Chegada difícil e riqueza cultural
“Se hoje ainda temos muito que avançar nas relações entre o poder público e os cidadãos, imagine na segunda década do século XIX”, brinca o professor. Ao desembarcarem no Rio Grande do Sul, muitas das promessas de Dom Pedro I, que fizeram os imigrantes enfrentarem os mais de 12 mil quilômetros entre a Alemanha e o Brasil, não foram cumpridas. “Em bom português, eles tiveram que se virar”, ressalta o professor da PUC-RS.
Mas tão logo se instalaram em São Leopoldoe outras cidades, os imigrantes começaram a colocar no dia a dia da colônia muitas de suas tradições germânicas, seja na alimentação, na música e na religiosidade. “Esta talvez seja a grande beleza dessa vinda para cá, pois através da mistura entre a cultura que já existia e a cultura européia, criamos uma nova cultura. Ao mesmo tempo que os alemães se acostumaram a beber chimarrão, muito da educação e da cultura alemã acabou se consolidando no Rio Grande do Sul. A criação de diversas escolas é um marco nas colônias em uma época em que a educação era para poucos”, exemplifica Gertz.
Até hoje a cultura criada nas colônias alemãs do Rio Grande do Sul surpreende, até mesmo os alemães que visitam o Estado. “Vivi na Alemanha e lá até hoje come-se muito mal. Os alemães que vêm ao Brasil ficam surpresos com o ‘upgrade’ feito pelos alemães na culinária do país. Acrescentando ingredientes locais, criaram uma culinária rica e diferenciada. Essa mistura do ‘gaucho’, dos índios, dos negros, depois com a vinda de outros imigrantes, foram os responsáveis pela riqueza econômica e cultural de nosso Estado”, finaliza o professor.
Texto: Euclides Bitelo
Edição: Redação Secom