Integração entre ciência e gestão de riscos é apontada como fundamental para enfrentar eventos extremos
Especialistas do Brasil e da Argentina destacam a necessidade de transformar dados em decisões eficazes
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A integração entre ciência, governança e comunicação de riscos climáticos marcou o painel que encerrou a manhã de quarta-feira (24/6) no Congresso Internacional de Proteção e Defesa Civil, promovido pelo governo do Estado em parceria com o Local Governments for Sustainability (Iclei). Inserido no Programa de Preparação para Eventos Extremos (Prepara RS – El Niño), o encontro reuniu representantes do Brasil e da Argentina para discutir a evolução dos sistemas de alerta precoce, a governança climática e os desafios de adaptação diante do aumento de eventos meteorológicos extremos.
A coordenadora de Prognósticos Regionais do Serviço Meteorológico Nacional (SMN) da Argentina, Viviana Elisa López, ressaltou que a atuação dos órgãos de meteorologia e hidrologia tem como principal finalidade proteger a população. Segundo ela, esse trabalho exige cada vez mais a conversão de dados técnicos em informações capazes de subsidiar decisões diante de situações de risco.
“O nosso objetivo principal, tanto da meteorologia quanto da hidrologia, é proteger a população. Os alertas são o produto mais relevante emitido por essas instituições para as defesas civis, pois permitem antecipar ameaças e orientar medidas que ajudam a salvar vidas”, afirmou Viviana.
Ela explicou que a emissão de alertas depende de múltiplos fatores e não apenas de modelos matemáticos. “O prognóstico não é 100% certeiro. Por isso, o prazo é muito importante no momento de decidir o nível do alerta, porque deve considerar a incerteza, a intensidade do fenômeno e o contexto em que ele vai ocorrer”, disse. Viviana também ressaltou a evolução dos sistemas de previsão. “Atualmente estamos trabalhando para levar o nosso sistema de alerta precoce para um modelo baseado em impactos, em que não apenas se prevê o fenômeno, mas principalmente o que ele vai causar nas pessoas e nos territórios”, completou.
Prevenção e resiliência no centro do debate
Representando a província de Santa Fé, a secretária de Mudança do Clima, Verónica Irizar, destacou que a crise meteorológica aprofunda desigualdades já existentes e exige uma mudança estrutural na forma como os governos lidam com o risco e o planejamento público. “Não temos responsabilidade [pelas emissões], mas sem nenhuma dúvida estamos pagando as consequências da mudança climática. Isso exige que a gente saia de uma lógica de apenas reagir às emergências e passe a usar esses recursos para prevenir riscos e fortalecer a resiliência dos territórios”, afirmou.
Verónica defendeu uma transição mais ampla no modelo de desenvolvimento. “Temos um compromisso ético de redução de emissões e de avançar fortemente na transição energética e na mudança do modelo produtivo, porque não se trata apenas de responder a desastres, mas de evitá-los antes que aconteçam”, disse.
A secretária também chamou a atenção para os desafios institucionais enfrentados no país. “Nós temos um governo nacional que adota uma postura negacionista em relação à mudança climática, que se retirou dos territórios e reduziu os recursos com os quais os governos subnacionais contam, o que torna ainda mais difícil sustentar políticas de adaptação de longo prazo”, pontuou.
Monitoramento e alertas salvam vidas
A diretora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Regina Célia dos Santos Alvalá, ressaltou que a gestão de riscos depende da articulação entre diferentes áreas do conhecimento e da integração entre monitoramento, prevenção e comunicação com a sociedade. “Precisamos conhecer os riscos, nos preparar, disseminar e comunicar. E, para isso, é fundamental monitorar e alertar antecipadamente, porque, sem informação qualificada, não há como proteger vidas”, afirmou.
Ela destacou ainda a importância da interdisciplinaridade no trabalho do centro. “O elemento social é fundamental no trabalho que fazemos. As nossas equipes são formadas tanto por profissionais das ciências exatas quanto das ciências sociais, porque não basta entender o fenômeno físico - é preciso compreender também quem está exposto e em que condições”, explicou.
A diretora do Cemaden enfatizou que o enfrentamento de desastres exige ação conjunta entre o Estado e as comunidades, reforçando que, embora as três esferas de poder sejam essenciais, é no nível local que o impacto se materializa. Além disso, a especialista destacou a importância da cooperação regional para o gerenciamento de fenômenos meteorológicos que transcendem fronteiras nacionais.
Ferramentas modernas ampliam a capacidade de alerta
Encerrando o painel, o meteorologista e coordenador do Centro de Monitoramento da Defesa Civil do Rio Grande do Sul, Bruno Zanetti Ribeiro, destacou os avanços tecnológicos do Estado na área de monitoramento e a mudança de abordagem da previsão tradicional para uma lógica centrada em vulnerabilidades. “Não há uma previsão de tempo convencional, é uma previsão focada em risco. Isso muda completamente a forma como a informação é produzida e utilizada, porque o objetivo não é apenas dizer se vai chover, mas qual é o impacto que essa chuva pode causar em cada território”, afirmou.
Ele explicou o papel dos radares meteorológicos na análise de eventos severos. “O radar nos permite fazer basicamente o raio X das tempestades. A gente consegue identificar o que tem dentro delas, se há chuva, granizo, qual o tamanho do granizo e a intensidade do vento, o que é essencial para a emissão de alertas mais precisos e rápidos”, disse.
Ribeiro destacou ainda a necessidade de alinhamento entre limiares nacionais e estaduais, para auxiliar gestores na tomada de decisão e facilitar o entendimento da população a respeito dos riscos.
Ao final das apresentações, os participantes convergiram na avaliação de que o avanço da gestão de riscos climáticos depende menos da tecnologia disponível e mais da capacidade de integração entre instituições, da padronização da comunicação e da centralidade da população nos sistemas de alerta. A consolidação de uma governança meteorológica articulada entre diferentes níveis de governo foi apontada como elemento essencial para enfrentar a intensificação dos eventos meteorológicos extremos.
Texto: Ascom DC
Edição: Secom