O Grande João Paulo II
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Germano Rigotto, governador do Estado A Igreja reserva a designação de Magno para pouquíssimos de seus pontífices. Recordo-me de dois em especial: o papa Leão Magno, que no século V, apenas com a força de seu caráter, defendeu Roma da investida de Átila, e o papa Gregório Magno, um dos quatro originais doutores da Igreja, que viveu no século seguinte. Esta transição de milênio proporcionou a nossos contemporâneos o privilégio de conviver com outro pontífice que certamente tem lugar assegurado na galeria dos mais notáveis sucessores de Pedro. O polonês Karol Wojtyla, em seu longo magistério, ergueu-se muito acima de quaisquer das grandes figuras de seu tempo graças a sua personalidade e fidelidade à missão pastoral que lhe foi confiada na sucessão de Albino Luciani, o papa João Paulo I. Desnecessário, aqui, repisar sua participação sempre positiva e construtiva nos principais episódios do século passado e a pluralidade de seus talentos como intelectual, comunicador e líder espiritual. Julgo mais importante registrar sua condição de cidadão investido de escasso poder temporal num mundo crescentemente complexo, no qual ele emerge ao papado como cidadão que padeceu diretamente os malefícios dos três totalitarismos que infernizaram o século XX: o comunismo, o nazismo e o fascismo. Sem dúvida, tais experiências concretas o transformaram num verdadeiro humanista, num defensor intransigente da humanidade, desde a concepção até a morte, passando pelas incontáveis contingências que os sistemas econômicos projetam sobre a vida social e individual. Não era sem motivos concretos, portanto, o rigor de suas posições em defesa dos direitos humanos, do diálogo, da convivência fraterna, da justiça e da paz. Ele sabia. E ele sabia que o humanismo sem Deus é profundamente desumano, porque inibe, na pessoa, o desenvolvimento de parcela significativa de sua própria natureza. Com tais determinações clamou contra as guerras. Com soberana sabedoria e equilíbrio denunciou os males dos sistemas vigentes, arbitrou conflitos, defendeu os humildes, convocou os poderosos às suas responsabilidades essenciais e se opôs ao individualismo e ao coletivismo. Com imensa coragem, fosse perante quem fosse, afirmou, sempre, os mais elevados princípios universais. E foi com a coragem própria dos verdadeiramente humildes que tantas vezes pediu perdão por equívocos cometidos pela Igreja numa mesma História para a qual ela, por vinte séculos, produziu tão admiráveis contribuições. Tive a alegria de estar em Roma, na Praça São Pedro, no dia em que a fumaça branca anunciou sua elevação ao papado. No meio do povo, recebi, então, sua primeira bênção como novo pontífice. Hoje, associo-me pessoalmente, como católico, ao universal pesar causado pelo seu desaparecimento. E confio em que o próximo conclave nos proporcionará um bom pastor para a continuidade dessa nobre missão. Especial para Zero Hora, 06 de abril de 2005.