Piquete Lanceiros Negros Contemporâneos realiza cavalgada
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O Piquete Lanceiros Negros Contemporâneos realiza neste domingo, 18/11,a partir das 9h30min, uma cavalgada pelo trajeto dos territórios negros, locais de referência histórica do povo afrodescendente em Porto Alegre. A programação da Semana da Consciência Negra, que se estende até o dia 20, inclui diversas atividades como apresentações de danças de matriz africana, Escola de Samba e do grupo Status; entrega de troféu a personalidades afrodescentendes; bailes; roda de samba e oficinas de formação de professores. O encerramento será com a extinção da Chama da Liberdade, na presença de autoridades políticas, culturais e representantes da comunidade negra.
Para a agenda desenvolvida ao ar livre no Parque Estância da Harmonia e dentro do Piquete são disponibilizadas cadeiras para pessoas portadoras de necessidades especiais e idosos. As ações são realizadas em local plano, sem necessidade de rampas de acesso. Todas as atividades previstas nesse projeto são gratuitas. Os organizadores da Semana também estão preocupados com o impacto ambiental no parque e, por isso, distribuíram lixeiras com separação de lixo durante o evento.
A Semana da Consciência Negra é uma promoção da Secretaria de Estado da Cultura (Sedac), através da Fundação Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (FIGTF), Secretaria de Educação (Seduc), Associação dos Amigos do IGTF (AATF) e Piquete Lanceiros Negros Contemporâneos. Patrocínio do Ministério da Cultura e Sulgás. A execução do evento é da Mar Doce Produções.
Piquete Lanceiros Negros Contemporâneos
É uma organização não governamental formada por negros que se identificam com o gauchismo, não necessariamente com o tradicionalismo - que é uma construção da sociedade moderna mais recente (1948) - mas com a cultura gaúcha que foi construída desde o início do século XV, por espanhóis, índios, portugueses e negros. O Piquete respeita os negros que expressam sua negritude usando o cabelo rastafári; a colorida bata tipo africana; que curtem ou não um reggae, um samba ou pagode; participam do movimento hip-hop; praticam a capoeira, ou ainda procuram a sua identidade em outras matrizes culturais, mas também que querem ser respeitados como negros gaúchos ou gaúchos negros. O Piquete acredita que tudo o que foi construído neste Estado tem o braço e a participação do negro, inclusive essa cultura gauchesca que se impõe hegemonicamente no Rio Grande do Sul.
Programação:
18/11 - Domingo
9h30min - 10ª Cavalgada da Consciência Negra - Homenagem aos Lanceiros Negros.
13h30min - Show do Grupo Status.
15h - Domingueira.
19/11 - Segunda-feira
Durante o dia - Formação de professores (CREs) no Parque Estância da Harmonia.
9h30min - Palestra sobre a contribuição do negro na formação cultural do Estado - diretor técnico da FIGTF, professor Claudio Knierim
20h - Entrega do Troféu Lanceiros Negros Contemporâneos.
21h - Apresentação de Escola de Samba.
20/11 - Terça-feira
17h - Marcha da Consciência Negra.
20h - Ato Encerramento do Acampamento da Consciência Negra com a extinção da Chama da Liberdade.
Roteiro da Cavalgada (organizado pelo historiador da FIGTF Giovani Mesquita)
1. Parque Estância da Harmonia
2. Av. Loureiro da Silva.
3. Rua Vasco Alves.
4. Rua Washington Luiz.
5. Rua dos Andradas até o Largo da Forca, atual Praça Brigadeiro Sampaio e Pelourinho, em frente à Igreja da Dores .
6. Rua Caldas Junior.
7. Rua Siqueira Campos até o Mercado Público.
8. Rua Otávio Rocha.
9. Rua Dr. Flores até a Igreja do Rosário.
10. Rua dos Andradas.
11. Av. Independência.
12. Rua Miguel Tostes.
12 . Rua Castro Alves até a Colônia Africana.
13. Rua Mariante.
14. Rua Vasco da Gama.
15. Rua Fernandes Vieira
16. Av. Osvaldo Aranha.
17. Rua Ramiro Barcelos.
18. Rua Jerônimo de Ornelas.
19. Rua Santana até a Redenção.
20. Av. José Bonifácio.
21. Rua Santa Teresinha.
22. Av. Venâncio Aires.
23. Av. Érico Veríssimo até o Centro desportivo Tesourinha.
24. Praça Lupcínio Rodrigues - Ilhota
25. Rua André Belo.
26. Rua Baronesa do Gravataí - Quilombo Urbano Guaranha - Areal da Baronesa
27. Rua Dezessete de Julho.
28. Av. Praia de Belas.
29. Av. Aureliano de Figueiredo Pinto.
30. Rua João Alfredo.
31. Rua Joaquim Nabuco
32. Travessa dos Venezianos.
33. Rua Joaquim Nabuco.
34. Rua João Alfredo.
35. Av. Loureiro da Silva - Largo Zumbi dos Palmares
36. Rua José do Patrocínio.
37. Rua Sarmento Leite.
38. Rua Gen. Lima e Silva.
39. Av. Loureiro da Silva
40. Rua Ibanor José Tartarotti.
41. Parque Harmonia
Locais históricos da cavalgada
1. Largo da Forca, atual Praça Brigadeiro Sampaio - Local onde eram enforcados escravos e libertos por crimes, sendo a lei, evidentemente, mais severa com os escravos. Por roubo, um escravo podia ser enforcado. Nessa ocasião os professores tinham que trazer seus alunos para a execução. O povo de maneira geral era chamado e os senhores levavam seus escravos para aprenderem a lição. Após o enforcamento, o corpo ficava pendurado por vários dias a vexação pública póst-mortem.
2. Pelourinho, em frente à Igreja da Dores - Para um arraial se transformar em vila, a lei obrigava que fossem tomadas as seguintes providências: inaugurar o Pelourinho e convocar os cidadãos locais (chamados na época de homens bons), para eleger os primeiros vereadores. O nome pelourinho tem sua origem na bola que encimava a coluna de alvenaria (em latim denominada de pirorium). Era construído sobre um pedestal, com escadaria feita de pedras. Erguido na praça principal da vila, o pelourinho era uma espécie de marco ou emblema da administração, servindo também como local de castigo de escravos fugidos ou que cometiam algum ato de rebeldia.
Uma das lendas urbanas da nossa Cidade surgiu da construção da Igreja das Dores, que teve lançada sua pedra fundamental em 1807. Os ilustres senhores ofereciam seus escravos para trabalhar na construção. Em 1832, Domingos José Lopes, grande proprietário de escravos e comerciante, mandou seu escravo Jósimo para o trabalho de construção. Por esse tempo começou a desaparecer materiais da construção. O próprio comerciante se apressou em denunciar Jósimo, que, segundo a lenda, tinha seu especial desafeto. Jósimo foi sumariamente julgado e mandado para a morte no Largo da Forca. No momento do seu enforcamento lançou o seguinte desafio: se realmente eu tiver culpa ele há de ver a conclusão das obras da Igreja, mas, do contrário, ele não verá o seu termo. Só 95 anos depois a Igreja pode ser inaugurada.
3. Mercado Público - Mercado Público - lugar de reunião dos negros no dia a dia, onde trabalhavam de vendedores, carregadores, construtores. Esses trabalhadores em geral eram os negros de aluguel, que vendiam sua mão-de-obra no centro da Cidade para diversas tarefas e, no fim do dia, levavam seu rendimento ao Senhor. Até hoje o mercado é referenciado por adeptos de religiões Afrobrasileiras. Diz-se que embaixo da Banca Central foi enterrado, no momento da construção do Mercado, um Bará. Essa é mais uma construção de trabalhadores negros escravizados.
4. Igreja do Rosário - Em 1786 foi fundada a maior Irmandade Negra da Capital: a do Rosário. As irmandades negras tinham como principal finalidade arrecadar dinheiro para financiar enterros, sustentar crianças órfãs e para apoio as alforrias. Essas irmandades faziam um difícil jogo entre agradar a Igreja Católica (e a classe senhorial) e manter suas tradições e suas religiões. Em função desse jogo, a Irmandade do Rosário mandou construir em 1817 a Igreja dos Pretos de Nossa Senhora do Rosário, que foi inaugurada em 1827. Esse local ficou, então, sendo centro de atração para os negros cativos ou libertos. Sob o manto de cultos católicos sobreviviam os ritos negros.
5. Colônia Africana - Rua Castro Alves - Originariamente, no século XIX, o bairro Rio Branco era conhecido como Colônia Africana, abrigando escravos alforriados e, mais tarde, os libertos pela Lei Áurea. Diferenciada da maioria dos bairros, a Colônia Africana não se desenvolveu ao redor de uma igreja. Ali, como em toda parte em que lhe fosse possível, os negros costumavam praticar seus cultos e festas. Os limites da Colônia eram demarcados pela rua Castro Alves, Casemiro de Abreu, Venâncio Aires (atual Vasco da Gama), Boa Vista (hoje, Cabral) e Rua Liberdade. Com o tempo, a área foi se valorizando. Originariamente ficava muito longe dos muros da cidade, e a ganância e o preconceito empurraram o povo negro cada vez mais para longe. A nossa caminhada pelo bairro começa com a rua que leva significativamente o nome do grande poeta abolicionista Castro Alves.
6. Redenção - Os Campos da Várzea sempre estiveram no caminho da história dos negros de nossa Cidade. Em pleno período de escravidão, os negros tinham permissão de juntar-se aos domingos à tarde para brincar. Nesse momento era que celebravam suas tradições, batendo tambores - os Cucumbis, Candombes, Cordões, blocos, batuque e macumba. Um ano antes da alforria, muitos senhores, prevendo a inevitável liberação dos escravos, antecipavam-se ao Império. Em cerimônias públicas, para mostrar sua suposta bondade, os senhores libertavam escravos nos Campos Várzea. Por esse motivo, o lugar foi batizado como Campos da Redenção. Esse também foi o primeiro lugar que abrigou esses negros forros, que não tinham para onde ir. É necessário lembrar que esse lugar ficava fora dos murros da cidade na época.
7. Centro desportivo Tesourinha - Osmar Fortes Barcelos, o famoso Tesourinha, em 1945 foi considerado o melhor ponta direita das Américas. Em 1949 foi para o Vasco da Gama. Em fevereiro de 1952, por ato do Presidente Saturnino Vanzelotti, o Grêmio acabou com um preconceito de cor que já durava 49 anos: o de não aceitar negros em seu time de futebol. Tesourinha quebrou esta tradição germânica ao ser contratado. Em novembro de 1955, Tesourinha encerrou suas atividades no futebol com uma festa promovida pelo Grêmio.
Hoje recebe homenagens da cidade. Seu nome batiza o campo suplementar do Estádio Beira Rio e o Ginásio Municipal leva seu nome. Segundo especialistas da mídia esportiva ele pode ser considerado o maior jogador gaúcho de todos os tempos.
8. Ilhota - Outra localidade habitada pelo povo negro de Porto Alegre após a abolição foi a Ilhota. Área distante do centro da cidade, era chamada assim porque ficava entre as margens do Riacho Dilúvio e do Arroio Cascatinha. A área era alagadiça, sujeita a inundações e, por isso, pouco valorizada. Tornou-se um bairro popular de grande tradição do samba. E ali, na Travessa Vidal, nasceu e viveu por muitos anos o maior compositor gaúcho de todos os tempos: Lupicínio Rodrigues. Lupicínio, conhecido nacionalmente por seus sambas-canções é também compositor de, pelo menos, dois temas campeiros: Mate Amargo e Felicidade.
9. Quilombo Urbano Guaranha - Areal da Baronesa - Em pleno Areal da Baronesa, outro reduto negro pós-escravidão, situa-se a Comunidade do Areal - Vila Guaranha, que foi considerada Quilombo Urbano pela Fundação Palmares em 30 de abril de 2004. Seus moradores são os remanescentes de uma comunidade muito maior. A exemplo da Colônia Africana, muitos moradores da Ilhota foram expulsos de suas terras para lugares distantes do centro da Cidade. Entre outros, Neri Caveira, um dos maiores nomes da história do carnaval de nossa Cidade, com passagem por escolas como Areal da Baronesa e Imperadores do Samba, é filho do Areal.
10. Travessa dos Venezianos - A atual Joaquim Nabuco chamava-se Rua dos Venezianos, hoje reduzida a uma Travessa tombada pelo Patrimônio Histórico do Município em 1980. Ali nasceu, em 1873, uma das primeiras agremiações carnavalescas da Cidade, que deu origem às modernas escolas de samba de Porto Alegre. Dessa mesma rua, nos anos cinqüenta, um grupo composto por seis guris fundou o Grupo Carnavalesco Imperadores do Samba. Luiz Carlos Amorim Borges, em depoimento disse: A gente era guri. Naquela ocasião, nós tínhamos um grupo de Carnaval, os Venezianos. Os Venezianos já existiam antes de termos nascido.
11. Largo Zumbi dos Palmares - Zumbi dos Palmares - Líder do Quilombo dos Palmares (1655-1695). Símbolo da resistência negra contra a escravidão, adotou o nome Zumbi, que significa guerreiro. Assumiu o comando político e militar de Palmares em 1678. Liderou a resistência contra a escravidão e o sistema monárquico colonial dos portugueses. Palmares era uma multidão de gente, que, além de pôr em xeque o projeto colonial, ameaçava fisicamente a sociedade escravista. Era preciso esmagar Palmares, custasse o que custasse. A tarefa de destruir Palmares foi confiada pelo governador de Pernambuco ao mercenário Domingos Jorge Velho, um bandeirante paulista sem escrúpulos, especialista na caça aos índios e líder de uma tropa de assassinos profissionais. Em 20 de novembro de 1695 era morto Zumbi, o Grande Chefe da primeira República verdadeiramente livre das Américas.
12. Rua José do Patrocínio - José Carlos do Patrocínio, jornalista e escritor fluminense, filho de escrava, dono do jornal Gazeta da Tarde, escrevia sempre, de maneira impetuosa, a favor da abolição da escravatura e pela República.
Contra a escravidão todos os meios são legítimos e bons. O escravo que se submete, atenta contra Deus e contra a civilização; o seu modelo, o seu mestre, o seu apóstolo deve ser Spartaco.
Participou de várias manifestações violentas contra capitães de mato e capatazes. Seu jornal foi fundamental para a divulgação da propaganda abolicionista e serviu como um veículo poderoso para que a voz de escritores, professores e profissionais negros fosse ouvida.
Texto: Rita Escobar
Edição: Redação Secom