Governo do Estado promove seminário regional em Caxias do Sul para fortalecer o enfrentamento integrado ao feminicídio
Encontro reuniu especialistas e representantes da rede de proteção para ampliar ações de combate à violência contra as mulheres
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O governo do Estado, por meio da Secretaria da Mulher (SDM), em parceria com a Universidade de Caxias do Sul (UCS), realizou, na quarta-feira (10/6), o seminário regional Masculinidades, Prevenção e Enfrentamento aos Feminicídios. A atividade ocorreu no UCS Teatro, em Caxias do Sul, e teve por finalidade fortalecer as redes de proteção a partir do debate e reforçar a participação de toda a sociedade no combate às violências doméstica, familiar e de gênero.
Ao longo do dia, cerca de 450 pessoas estiveram no auditório para prestigiar o evento, que reuniu a comunidade acadêmica, gestores públicos e empresas privadas, profissionais da rede de enfrentamento e proteção às mulheres, além do público geral. O seminário integra o Programa Estadual de Proteção e Promoção dos Direitos das Mulheres, lançado em março pelo governador Eduardo Leite, e está alinhado ao eixo de capacitação e desenvolvimento, que promove a formação e a qualificação da rede.
Durante a abertura, a titular da SDM, Ana Costa, saudou a parceria com a UCS para colocar em discussão um tema tão complexo e destacou a necessidade do envolvimento coletivo no enfrentamento à violência. “Essa é uma luta de todos nós, então devemos assumir o nosso papel. Cada um pode colaborar levando essa reflexão para diferentes espaços: no Legislativo, nos órgãos de segurança, na educação, nos municípios. Só venceremos se estivermos juntos e unidos”, disse.
O seminário foi organizado em quatro painéis, nos quais especialistas de diferentes áreas convergiram o debate em torno das boas práticas e do cuidado às mulheres em situação de violência, da gestão das redes de proteção municipais e estadual, dos grupos reflexivos para homens autores de violência, além de estimular a discussão sobre masculinidades e feminismos.
Perfil do homem autor de violência
A professora e doutora em Direito Joice Graciele Nielsson conduziu o primeiro painel, apresentando os resultados parciais da pesquisa “O retrato do autor de violência contra a mulher no sistema prisional”, uma parceria da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí) com o governo, por meio da Secretaria de Sistemas Penal e Socioeducativo (SSPS).
Joice explicou que a proposta do projeto, que teve início em maio de 2025, é propor um panorama mais claro sobre os homens autores de violência recolhidos no sistema prisional do Rio Grande do Sul. A pesquisadora defendeu a importância da ciência para o fortalecimento das políticas públicas e detalhou as estratégias metodológicas.
Além de uma etapa quantitativa, que busca contabilizar os homens presos com histórico de violência e traçar seus perfis, o estudo também pretende ouvir as histórias desses indivíduos, a partir de entrevistas, elevando a pesquisa a uma dimensão sociológica para entender em que medida as masculinidades tóxicas se manifestam. A professora citou ainda o levantamento de boas práticas realizadas dentro do sistema prisional, como grupos reflexivos, por exemplo, e, por fim, destacou um eixo da metodologia que contempla a dimensão estrutural, isto é, verificar de perto a gestão das unidades prisionais no Estado.
Até o momento, 80 homens já foram entrevistados no estudo, segundo Joice, que pretende realizar os diálogos em todas as regiões do território gaúcho, para obter uma amostragem regionalizada desses perfis. “A pesquisa é um convite para que todos nós estejamos cada vez mais comprometidos com o processo de construção de um mundo menos violento. É preciso acabar com o silenciamento para romper o ciclo da violência.”
Machismo e grupos reflexivos para homens
Outra contribuição para o seminário foi a da consultora de projetos do Instituto Promundo, Angelita Herrmann, que falou do impacto das noções tradicionais sobre masculinidades na cultura contemporânea, em articulação com os estudos sobre feminismos, especialmente no final da década de 1960, marcada pela chamada segunda onda do movimento. Angelita explicou que é comum que, muitas vezes, por trás da identidade masculina haja fragilidade e medo de o homem perder o controle das situações.
A consultora frisou ainda a necessidade de combater alguns comportamentos. “Quando o colega do bar faz uma piada sexista ou quando ele conta que olha o celular da companheira, a gente não pode fazer de conta que não ouviu ou não se incomoda com essas situações”, observou.
A segunda parte do seminário foi dedicada a grupos reflexivos e boas práticas para a rede de proteção. O juiz de Direito da Vara Especializada em Violência Doméstica da Comarca de Caxias do Sul, Filipe de Almeida Lemos, apresentou os projetos desenvolvidos pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS), com foco na assistência continuada a mulheres em situação de violência, num acolhimento com igualdade e na escuta ativa.
Na mesma linha, a psicóloga do TJRS, Nathalia Matos Pereira, e a assistente social Lívia Seeling explicaram como funciona o Programa Grupos Reflexivos para Homens Autores de Violência (GRHAV) de Caxias do Sul. As profissionais destacaram o desafio de ouvir o indivíduo autor de violência. "Punição não basta. É muito importante esse espaço de reflexão e de responsabilização", defendeu Nathalia.
Municípios compartilham experiências de proteção às mulheres
O último painel, intitulado "Boas práticas no cuidado da pessoa e a gestão da rede de proteção de mulheres" foi mediado pela secretária-adjunta da Mulher, Viviane Viegas. A discussão buscou conhecer iniciativas de diferentes municípios da Serra para ampliar e fortalecer o debate.
De acordo com Viviane é fundamental que haja um olhar a partir da perspectiva da pessoa autora de violência. “Esse debate todo é essencial para que nós possamos observar as percepções desses homens em relação à sua própria vivência social, e é importante que a Rede esteja preparada para isso”, finalizou.
O seminário contou ainda com a participação do reitor da UCS, Asdrubal Falavigna, da doutora em Letras e docente, Paula Mascarenhas, da professora da UCS, Raquel Cristina Pereira Duarte, da representante da Casa Civil no RS e Conselheira da Fundação Universidade de Caxias do Sul, Paula Cristina Ioris de Oliveira, além de membros de organismos de proteção para as mulheres de Caxias do Sul, Farroupilha e Bento Gonçalves.
Texto: Ascom SDM
Edição: Secom